13 de dez de 2009

EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA


Neste fim de semana bati um papo com meus primos sobre a evolução através das experiências, e falava sobre Jung e a busca da individuação, através do equilíbrio entre pensamento e sentimento, intuição e sensação. Muito antes Sócrates já falava do equilíbrio na educação dos guerreiros (que deveriam também aprender música) e várias das idéias foram se encaixando no modelo de evolução em espiral que tinha visto nas aulas do CEPEC.
Resolvi brincar um pouco em cima disso, fazendo um novo modelo:


Modelo de evolução da consciência,
mais conhecido nos meios esotéricos
como "cuscuz evolutivo"

Esse modelo (que serve apenas como apoio visual para falar de algo tão abstrato) mostra a evolução da consciência como uma espécie de LP, com suas faixas que vão da borda para o centro (que seriam as "órbitas", onde nós giramos como os planetas giram em torno do sol) compondo uma subida cônica contínua, como numa montanha. O centro seria a união, o TODO, o Self. A maioria das pessoas fica pelas bordas, por pura inércia (força centrífuga e gravidade), guiada pelo instinto, pela lei do menor esforço, pelo desejo e pelas circunstâncias, sem muita consciência de si mesmo. À medida que vamos adquirindo entendimento, galgamos um ponto de altura, ainda na mesma "órbita", mas já acima da compreensão geral do seu grupo consciencial.


Os círculos vermelhos são as alturas
dentro do mesmo raio de cada "órbita".
Na "órbita" central já não há necessidade
de gradação de altura

Talvez a pessoa nessa faixa fique orgulhosa de seu "conhecimento", mas mal sabe ela que ainda está na periferia. Mas é o destino de todos nós sermos atraídos para o centro, alguns mais rápido, outros mais devagar. Alguns procuram um atalho: em vez de subir essa montanha em espiral (uma caminhada mais suave e onde se curte mais a paisagem, o que proporciona um grande aprendizado) seguem uma linha íngreme direto para o topo. Essa é a porta estreita, que Jesus e Buda nos falam. Nada contra quem quer apreciar a paisagem: cada um tem seu ritmo de caminhada, e só evoluímos quando aprendemos a respeitar e compreender cada pessoa em cada nível dessa espiral. Afinal, quem vê a paisagem do alto da montanha pode até prever o próximo movimento de quem está embaixo, ver suas dificuldades na escalada e ajudar com alguma orientação sobre qual o melhor caminho a tomar.

Aí entramos no Dharma: todos nós temos aptidões naturais para alguma coisa. Isso significa que já cumprimos aquela espiral em alguma encarnação, e quando podemos exercer plenamente essa aptidão, significa que estamos rodando na mesma órbita novamente, mas um pouco mais acima (como uma mesma nota musical, só que uma oitava acima). Um Senna, ou um Schumacher, possuem imensa vantagem sobre um Rubinho. Mas quem garante que o aperfeiçoamento de um talento é o ideal para a "subida do cuscuz"? Às vezes ficamos tão concentrados em fazer o nosso melhor que esquecemos de melhorar nossas imperfeições. Não se pode buscar o caminho dos extremos e negligenciar o desenvolvimento do espírito. Rubinho pode ser até um perdedor nas pistas, mas um vencedor em casa, como um bom pai, bom marido, boa pessoa... ao menos não se tem notícia de Rubinho quebrando hotel ou esmurrando jornalistas...

Mas a própria natureza humana nos impulsiona a viver novas experiências. Alguém que já atingiu o máximo de sua habilidade em certa coisa, mesmo que sinta prazer naquilo, vai chegar um tempo em que não irá satisfazer-se mais, o que acarreta um extremo vazio. É o caminho pendular dos extremos: muitos dos soldados que lutaram na 2ª guerra mundial desejavam que, quando tudo aquilo terminasse, fossem passar o resto da vida numa cidade bucólica, ou uma fazenda, algo longe de qualquer barulho. Já Senna compensava a agitação das corridas com uma forte introspecção natural. Mesmo os extremos servem para o aprendizado, ninguém deixa de crescer e aprender. Mas este é o caminho longo e prazeroso, com muitas armadilhas que podem fazê-lo rodar na mesma órbita (que seria o sansara) por muito, muito tempo...
Saiba que quem não se altera na tristeza ou na alegria, e em ambas se mantém firme, é digno da eternidade
(Krishna; Bhagavad Gita 2:15)

Então meu primo me apareceu um exemplo extremo e condenável: o assassino. Será que um serial killer está evoluindo ao cometer seus crimes? Infelizmente (e felizmente) a resposta é sim, embora ele esteja tornando sua vida bem mais difícil. Felizmente porque cada assassinato é um pequeno passo em direção à lição de não-matar, e uma pedra a mais que ele terá de carregar nas costas em sua penosa caminhada. Vejamos então a parábola budista do assassino Angulimala, que é bastante ilustrativa:

ANGULIMALA SUTTA

Gautama, o Buda, andava de um vilarejo a outro, acompanhado de seus discípulos, pregando a Verdade. Certa vez, seguiam por uma estrada fechada, quando depararam com alguns guardas do rei. E eles disseram:
- Voltem e sigam por outro caminho, porque por estas paragens está escondido um perigoso assassino, conhecido por Angulimala. Dizem que já matou 999 pessoas, das quais cortou um dedo de cada uma e fez um colar e está à procura da milésima para completar seu colar de 1000 dedos. Por isso o Rei mandou bloquear a estrada, para evitar que algum incauto seja a próxima vítima. Você pode pegar uma estrada mais longa à frente.

Mas Buda disse: Se eu não for, quem irá? Somente duas coisas são possíveis: ou eu o mudo (e eu não posso perder esse desafio) ou eu fornecerei o dedo que lhe resta para realizar seu desejo. De qualquer forma, eu vou morrer algum dia e me queimarão numa pira funerária. Acho que é melhor realizar o desejo de alguém e dar paz de espírito a esta pessoa. Ou ele me matará ou eu o matarei.

Então Buda continuou a caminhada, com seus discípulos desta vez bem de longe, acompanhando a cena. Finalmente encontrou Angulimala, que estava sentado em uma rocha. Angulimala mal pôde acreditar no que via: "Pessoas em grupos de dez, vinte, trinta e até quarenta seguiram por esta estrada e assim mesmo foram minhas vítimas. E agora esse monge vem sozinho, sem companhia, como se empurrado pela fé. Porque eu não deveria matar esse sujeito? Ele nunca ouvira falar de Siddhartha Gautama, mas podia sentir que este homem era especial, com um imenso carisma que tocava de alguma forma seu coração. Já não sabia se queria realmente matar aquele homem, embora quisesse muito o milésimo dedo.


Então, de espada em punho, Angulimala gritou: "PARE! Não dê nem mais um passo, ou a responsabilidade pela sua morte não será minha. Talvez não saiba quem eu sou!"
E Buda respondeu:
- E você sabe quem você é?
- Esse não é o ponto! Aqui não é a hora ou lugar para discutir essas coisas. Sua vida está em perigo! - Disse Angulimala.
- Pois eu já penso diferente: sua vida está em perigo.
Angulimala riu:
- E eu que pensava que eu era louco... você é que é louco, aproximando-se desse jeito! Depois não diga que eu matei um homem inocente. Não quero matá-lo, posso achar outra pessoa para completar o colar, mas não me force a fazê-lo, andando em minha direção!
- Você está totalmente cego. Não pode ver uma coisa tão simples: eu não estou me movendo em sua direção, você é que está vindo até mim.
- Que maluquice!! Todos podem ver que é você que está se movendo e eu estou parado nesta rocha!
- A verdade é que, desde o dia em que alcancei a iluminação, não me movi nem um centímetro. Estou centrado, totalmente centrado, sem movimento. É sua mente que está continuamente se movendo em círculos, sem parar. E você ainda me diz que eu devo parar. Você deve parar! Eu já parei há muito tempo. Eu me abstenho da violência para com os seres vivos, mas você não tem nenhum refreamento em relação àquilo que tem vida: Essa é a razão porque eu parei e você não.
- Parece que sua loucura é incurável. Você está destinado a ser morto. Sinto muito, mas o que mais eu posso fazer?

Então Angulimala levantou sua espada, mas suas mãos estavam tremendo. Ele já havia matado tantas pessoas, mas nunca havia sentido essa fraqueza. Então Buda falou:
- Por que hesita? Você é um grande guerreiro, e eu sou apenas um pobre mendigo. Você pode me matar, ficarei feliz por satisfazer seu desejo de completar o colar. Minha vida já foi muito útil e assim minha morte também o será. Mas antes de cortar minha cabeça, ao menos satisfaça meu último desejo, como também vou satisfazer o seu de completar o colar, disse Gautama.
Angulimala, que àquela altura faria qualquer coisa para evitar aquela morte, respondeu: "o que quer?"
- Quero que corte um galho daquela árvore tão florida. Um galho que tenha bastante flores para que eu possa sentir sua fragrância pela última vez, pediu o Buda.
Angulimala golpeou um galho com o facão e foi entregá-lo, quando Buda disse:
- Essa é apenas a metade do meu desejo. Agora quero que você cole outra vez esse galho na árvore.
- Que tipo de louco você é? Como vou colar o galho na árvore outra vez?
- Se você não pode criar, não tem o direito de destruir. Se você não pode dar a vida, não tem o direito de dar a morte a nenhuma criatura.

Seguiu-se um momento de silêncio, de transformação. A espada caiu das mãos de Angulimala, que caiu aos pés de Buda, dizendo:
- Eu não sei quem você é, mas seja lá quem for, leve-me para o lugar onde você vive. Inicie-me.

Os discípulos de Buda, que ao longe escutavam, aproximaram-se e disseram: "Não inicie este homem! Ele é um assassino de pessoas inocentes!"
Mas Buda disse:
- Se eu não iniciá-lo, quem o fará por ele? E eu admiro a coragem deste homem, que lutou sozinho contra o mundo, apenas com uma espada. Agora ele lutará contra o mundo usando a consciência, que é muito mais afiada que qualquer espada. Eu lhes falei que um de nós iria morrer hoje. Angulimala está morto. Quem sou eu para julgá-lo?

E assim Angulimala foi iniciado.

Assim se dá a evolução. Mesmo um assassino cruel aprenderá o valor da vida, talvez de forma mais marcante e duradoura do que aquele que nunca passou por esta experiência. Então não nos apressemos em julgar os que estão mergulhados na ignorância, pois eles podem estar sedimentando a sua espiral de evolução, para poderem realizar um importante salto no nível de percepção.

Vemos a mesma lição em um sutta mais moderno, O Senhor dos Anéis (As duas torres), de J. R. R. Tolkien:
- Não sinto nenhuma pena de Gollum. Ele merece morrer.
- Merece! Suponho que sim. Muitos que vivem merecem morrer E alguns que merecem viver morrem. Você Pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para condenar à morte em nome da Justiça, temendo por sua própria segurança. Nem mesmo os sábios conseguem ver os dois lados.
Mas, e o resultado das ações de Angulimala? E seu karma? Bastou se converter pra "virar santo"? Bem, a história continua:

Após Angulimala ter se convertido em um dos arahants, certo dia ele tomou sua tigela e foi para a cidade de Savathi, para a coleta habitual de alimentos. Naquela ocasião alguém jogou uma pedra e atingiu o corpo de Angulimala, outra pessoa jogou um pau que também o atingiu, e outra jogou um pedaço de cerâmica. Então, com o sangue jorrando da sua cabeça cortada, com a sua tigela quebrada e com o seu manto externo rasgado, o venerável Angulimala foi até Buda, que falou: "Agüente, brâmane! Agüente, brâmane! Você está experimentando aqui e agora o resultado de ações pelas quais você poderia ser torturado no inferno durante muitos anos, por muitas centenas de anos, por muitos milhares de anos."


Fonte: Acid

Ref.: Angulimala Sutta e cap. 24 do livro A grande peregrinação.
Fonte: http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/conteudo.asp?id=04461

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